terça-feira, 19 de maio de 2009


AAB, AGRA, ARC e tijolos

Jolivaldo Freitas

Um imbróglio sem tamanho. É para me dizer isso, assim, de chofre, que me liga, logo de manhã cedo, em jejum, remela nos olhos e as juntas travadas, um sócio e depois outro, e a seguir mais um, oriundos da Associação Atlética da Bahia; famosa Azulina, que já foi um dos clubes mais bonitos, charmosos e tirado a besta da Bahia – só perdendo em postura aristocrática para o Bahiano de Tênis, que, quando nos píncaros da glória, não deixava preto entrar nem pelas portas do fundo. Na AAB não era tanto assim, mas até a década de 80, babá só entrava com o bebê se estivesse vestida a caráter.

  O que os associados queriam me tirando dos braços (é mera figura de linguagem) do deus Morfeu? Me alertavam para a necessidade de se chamar a atenção de todos que amam a AAB – que vai do garçom Souza até o vice-prefeito Edvaldo Brito – que a vaca está indo para o brejo. O pote quebrou. O ovo gorou. O leite derramou. Ou seja: o novo clube empacou de vez.

  A ARC Engenharia e a AGRA estão deixando a obra em banho-Maria. Colocam um tijolo por semana – mesmo assim quando não está chovendo e já asseguraram que a verba acabou, a paciência acabou, aquele love todo do início das negociações acabou e, pronto... a obra acabou e quem quiser que vá se queixar ao bispo (que não é sócio) ou chorar no pé do caboclo, lá no Campo Grande.

   Para você leitora entender melhor a história: cerca de quatro anos (ou seriam cinco? Ou seriam três) não lembro direito, tanto tempo já se passou, a Associação Atlética da Bahia estava numa penúria só. Os associados que pagavam eram poucos, a dívida com o IPTU era grande e havia o medo de João Henrique desapropriar, como o fez com o Clube Português e devia-se ainda ao INSS e FGTS. O terreno, na Barra, onde fica (ficava?) o clube sempre despertou a usura das empresas do ramo imobiliário, por estar numa área privilegiada. Foi então que a presidência do Clube, com aprovação do Conselho, decidiu vender um pedaço para pagar as dívidas. Acho que foi uma bagatela de 13 milhões de reais o negócio.

   A Arc a Agra iriam construir três edifícios de primeira linha, como vem mesmo ocorrendo, e se comprometeram em contrato (um conselheiro me disse que o contrato caducou e eu não entendi como é que contrato fica caduco) a construir primeiro o clube. No início foi assim e uma parte da estrutura do clube foi feita. Mas, c agora está lá, quase que parado e pelo que se sabe as empresas querem mais grana. Coisa de uns 2 milhões de reais. Nem vendendo droga no Porto da Barra o clube consegue o valor.

   Já tem sócios pensando em invadir o que resta do clube. Já tem outros querendo embargar a obra dos prédios. Tem uns que acham que o Movimento dos Sem-Teto poderia dar uma mão, invadindo e aterrorizando a Arc e a Agra que garantiram entregar o clube pronto em junho do ano passado, depois jogou para dezembro. A seguir passou para maio deste ano, depois para julho, para agosto e já está indo para 2010.

  Pior, me dizem aqueles que me despertaram de um sono profundo, totalmente em Alfa, que a ARC está colocando a AAB na parede, literalmente. Embora tenham se comprometido a construir logo o clube e depois os prédios e estarem fazendo o contrário, agora querem pegar a última nesga do terreno, que restou: uma encosta. Ou dá ou desce.

  Eu mesmo não acredito que uma empresa como a ARC esteja fazendo uma besteira deste tamanho. Duvido. Ainda mais que nos últimos anos ela tem investido mais do que ninguém em uma estratégia de marketing que inclui man ter uma boa imagem para o mercado.

Deve estar ocorrendo uma falta de diálogo. Coisa de casal. Comunhão de bens. Mas, os associados querem uma resposta ou o pau vai comer. Tem uns cinco sócios advogados que estão sendo mantidos no estrangulador. Quando soltarem, valha-me deus! Não sai clube nem apartamentos tão cedo.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009




  O xerife, o golpe, a calçola perdida e a vidente que foi presa


Jolivaldo Freitas

A Bahia tem coisa de dar arrepio. E acontece cada fato comigo que às vezes penso que tenho parte com o demônio. Várias semanas antes de acontecer mais um crime na Ilha de Itaparica, onde mataram o velejador e que levou dezenas de argonautas a um protesto inusitado na Baía de Todos os Santos, domingo passado, um amigo meu que tem um veleiro de nome Asbar, planejava levar um convidado holandês para a Ilha de Itaparica. Eu, no instinto, lhe disse que evitasse, que o lugar estava infestado de marginais. Ele apenas deu uma passada por lá e se picou, deu ninja, escafadeu-se. O francês foi morto e meu amigo ligou me agradecendo o insight. Vixe! Me benzi todo.
  Interessante é que antes desta história, quando ninguém lembrava do delegado José Magalhães - talvez o leitor ou leitora se lembre - escrevi aqui nesta coluna, pergunt ando se alguém sabia onde o homem foi parar. Onde ele estava depois de ter sido defenestrado da titularidade da delegacia do Rio Vermelho. Lembrei até, das histórias que eram comentadas, dando conta de que quando ele saia da delegacia para ir ao Vale das Pedrinhas ou Nordeste de Amaralina, os bandidos se escondiam nos tanques de água, os mais desesperados dormiam nos bueiros, muitos se vestiam de mulher para fugir para o interior do estado e quem bobeasse iria dormir para sempre.
  Daí lembrei que o homem era o terror dos organismos de Direitos Humanos e que havia caído em desgraçada por causa dos seus métodos. Mas, não é que de repente, na onda da Ilha de Itaparica ele ressurge das cinzas. Vixe! Me benzi todo de novo. O pior é que agora faço avaliação do discurso do delegado, que como xerife e herói da população ilhéus e chego à seguinte conclusão: vai faltar Hora Marcada para trazer os defuntos e não vai ter lancha suficiente em Mar Grande, par a dar vazão aos bandidos que começam a mudar de endereço. E, acredite, vai diminuir o número de roubos e assaltos em Itaparica, mas vai aumentar, em muito, a violência em Salvador. Os bandidos só vão mudar de endereço. O modus operandi será o mesmo.
  Falar em malandragem, tem bar na praça do Porto da Barra onde os turistas sofrem um novo tipo de golpe. Todos os garçons vestem camisa branca e calça preta e outros detalhes iguais. O turista pede a conta e ali mesmo, na hora, é dada. O garçom recebe o dinheiro e some. Depois de algum tempo o cliente pede o troco, mas já é outro garçom que vem e diz que no caixa não consta seu pagamento. Ou, no caso em que o cliente paga a conta certa e sai, um garçom vai atrás e exige de novo o pagamento. Como ninguém vai ficar encarando garçom - a não ser que seja muito curioso ou viado ou o garçom seja Tom Cruise -, o dono do restaurante chama todos e coloca na frente do turista que não sabe quem foi. Tem de pagar de novo.
  Mas, o Porto da Barra é pródigo em histórias. Semana passada uma mulher, sem a menor cerimônia, voltou já escurecendo para as proximidades do Forte de Santa Maria e começou a perguntar se alguém tinha achado uma calçola. Ela estava tomando banho de bermuda, tirou a calçola para lavar, colocou na areia para secar e esqueceu. Só lembrou quando chegou em casa e o marido perguntou o motivo de estar descalçolada. Explicou a história. O marido levou a moça para a praia e ficou na balaustrada olhando de longe enquanto ela catava na areia. Se achou não sei. Se não achou deve ter levado porrada.
  E li no jornal que uma vidente, de nome Mãe Dália. Foi presa pela polícia. Como uma profissional do ramo, que se preza, não viu que seria presa e não se mandou antes? Só na Bahia tudo isso acontece.

   Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista

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sábado, 7 de fevereiro de 2009


 Os afrodescendentes no rede bahia revista

 Jolivaldo Freitas

 Chama a atenção o fato de não chamar a atenção de ninguém; não haver nenhum tipo de abordagem ou mesmo análise sociológica, a nova estética dos programas de televisão, notadamente o jornalismo. Não estou abordando conteúdo, pois isso demandaria mais tempo e espaço, mas limitando o exposto à realidade que vem sendo constatada há alguns meses. O programa Rede Bahia Revista, da TV Bahia, por exemplo, está fazendo história. Interessante é que apesar disso, ainda não capitalizou em termos de impacto, talvez justamente pelo fato de está sendo uma coisa tão natural, que nem mesmo os críticos de sites, jornais e blogs, ou mesmo os RPs da casa se deram conta.

 Pois, pare para pensar que pela primeira vez nas telas baianas três afrodescendentes participam ao mesmo tempo de um programa-chave de uma importante rede de televisão local. Apresentam, debatem e mantêm a liderança no horário. No Rede Bahia Revista estão o conhecido jornalista da área cultural Osmar Martins (Marrom), egresso do jornalismo impresso; a carismática Wanda Chase (que também foi de jornal) e a boa surpresa que é a apresentadora Georgina Mainart. Eles dominam o programa, algo que nunca aconteceu (como diria Lula), na história deste país.

 Basta ver que a Globo sempre aproveitou repórteres afrodescendentes, mas jamais em grupo ou como âncora. Lembro da emoção que foi em novembro de 2002 - eu estava de plantão na TV Bahia - quando entrou no ar (o Jornal Nacional estava fazendo 33 anos de criado) na bancada do JN o jornalista negro Heraldo Pereira. Foi uma revolução dentro dos padrões globais. Heraldo, em entrevista a dezenas de jornais, fez questão de dizer que não queria servir como referência histórica e que sempre esteve preparado como profissional. Mas, o foi, mesmo sem ele querer. Estava apresentando o mais importante programa de jornalismo do país.

 Mas, não lembro de um grupo de afrodescendentes, como ocorre hoje no Rede Bahia Revista, está participando na pole-position de um programa. Lembro, sim, que num evento reunindo jornalistas, no final dos anos 80 do século passado, se chamava a atenção para a ausência de negros nos programa de TVs regionais. O primeiro a apresentar um programa, esportivo, diga-se de passagem, foi saudoso jornalista Cléo Montalvão, na TV Aratu, quando ela ainda retransmitia a TV Globo, nos anos 70 do século passado. Daí em seguida vieram outros espaçadamente, e outras, notadamente na TV-E a na TV Bahia, a exemplo de Ricardo Mendes (hoje professor e atuando no jornalismo impresso), que conseguiu alcançar posição importante dentro do jornalismo televisivo. Ele passou pelo próprio Rede Bahia Revista, tendo sido em seguida repórter do Jornal Nacional (Globo), e editor-chefe do Núcleo de Rede (TV Globo) na TV Bahia.

 É uma situação bastante interessante para esta cidade formada e amalgamada por quase dois milhões de afrodescendentes, quando vemos espaços sendo preenchidos por talentos oriundos deste caldeirão. Ainda mais nos programas jornalísticos das Tvs - e não de mero entretenimento ou de escândalos -, e em posições que podem ser consideradas até mesmo de elite perante a sociedade. E vale dar os parabéns para a TV Bahia. E olha que não se trata de cotas.

 É qualificação profissional e visão gestora diferenciada. 

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009



Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009  
 
Tô indo mijar

   Meninos, eu vi, juro. Estava lá sentado, fazia duas horas de relógio e presenciei. Eu já tinha ouvido falar que conseguir atendimento em empresas que fornecem serviço de celular era esparro dos brabos, como se dizia antigamente aqui na Bahia. Sempre achei que era queixume exagerado, coisa de quem nada tinha para fazer; fofoca de pessoas que queriam macular a imagem das empresas da área, grandes grupos estrangeiros que vieram para nos dar tranquilidade, modernidade e conforto. Eu dizia: aquieta! Não está vendo o exagero.
  Foi então que minha filha perdeu o chip do celular e apesar de tudo, de todas as ações de segurança que estas grandiosas e inestimáveis empresas oferecem, recebo uma conta de telefone móvel de infartar cardiologista. Como não era possível uma coisa destas, decidi ir em busca de uma justificativa com uma das maravilhosas, globalizadas e pós-modernas empresas de telefonia. Tinha a certeza absoluta que seria atendido com presteza, agilidade e educação pelas recepcionistas, pessoas treinadas, qualificadas e requalificadas, coisa de ISO 20 mil. Seria a minha chance de jogar na cara destas pessoas fofoqueiras, maledicentes e negativistas que falam mal da Claro, da Oi, da TIM, da Telemar, da Telefônica e de tantas outras, que eu estava certo em defendê-las como fator de desenvolvimento, modernidade e evolução para o país e que qualquer crítica era vil.
  Cheguei com todo gás, animação e confiança na loja própria da TIM no Shopping Iguatemi. Alvissaras! Fui atendido logo na entrada por uma jovem recepcionista que me perguntou  qual o assunto que tinha me levado lá e eu o dizendo, fui logo levado para uma fila. Expliquei a outra moça, no computador, que me ouviu com atenção e esmero, e contei e recontei meu caso e ela com toda autoridade disse para a outra:
  - Abra o protocolo!
  Meninos era tudo o que eu queria o uvir. Foi rápido, educado, civilizado e objetivo. Peguei o número da senha: 8. Sentei na sala de espera e olhei ao redor. Eram muitas pessoas e apenas três funcionários atendendo. Pensei: lógico que estes funcionários são velozes, adestrados e rápidos no teclado. Relaxei. Relaxei tanto que adormeci. Acordei. Adormeci. Acordei.  Acho que ronquei, pois levei uma cutucada de uma moça. Despertei e notei que toda aquela multidão que estava lá, e que chegou depois de mim já tinha sido atendida.
  Pois, mais de duas horas depois pergunto se tinha chegado minha vez e a moça, muito educado, quero observar, me disse que eu ainda tinha muito que esperar. Perguntei o motivo, pois tinha chegado cedo e não fora atendido. Ela me disse que era assim mesmo. Como eu estava indo contestar uma conta, minha senha passara a pertencer a um segmento de atendimento classificado como "outros". Isso significava que quem chegasse para comprar aparelho, trocar de aparelho, pedir i nformação de aparelho ou trocar número de aparelho, tinha prioridade. O que significava dizer que no caso - no meu caso que era contestar uma conta - somente seria atendido naquele mesmo dia com a ajuda de Deus e da Virgem Maria.
  Fiquei quieto esperando, com calma e observando. Foi então que notei que cada um dos atendentes que vendiam, anotavam, interagiam com os clientes - e eu esperando e a moça me dizendo que o sistema era assim mesmo e que era uma forma da empresa desestimular queixas - cada vez que acabava um atendimento saía, demorava e voltava. Outro fazia a mesma coisa. Comentei com o feliz proprietário da senha 9 que aquilo era estranho e ele me disse que era assim mesmo. Já tinha três dias que ia lá e que a cada atendimento o atendente ou a atendente ia tirar a água do joelho.Dar uma mijadinha básica. Ele me disse que TIM significava: Tô Indo Mijar. E eu não sabia. E pediu para que tivesse paciência. Tive. Só me irritei quando vi que eles mijavam o tempo todo, mas não lavavam as mãos. Aí também é demais.

   Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. e-mail: jolivaldo.freitas@yahoo.com.br

 

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sábado, 6 de dezembro de 2008


Sobre Mulheres e Chuva

Interessante, acordei e a chuva tinha ido embora
Interessante, pois aqui, na Barra, chove como em Belém
Interessante, sonhei com mulheres nuas, na chuva
Interessante, as mulheres não tinham rosto
Interessante, todas - traídas - me odiavam
Interessante, acordei carente de mulher e chuva

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


A cultura baiana indo para o ralo

Jolivaldo Freitas

 

 

Deveria ser preocupação de todos os baianos o futuro da nossa cultura. Não estou falando de Axé, pagode ou Rock, que são perenes, dentro do seu nicho de interessados; e muito menos do folclore para atrair turistas. Digo da cultura que envolve as artes plásticas, o teatro, a música erudita e a literatura. O problema é que os principais intelectuais e artistas, que moldaram o perfil da baianidade, estão indo para outra dimensão.

     Com a perda de Jorge Amado, Carybé, Calazans Neto, Smetak, Lindenberg Cardoso, Glauber Rocha, Leão Rosemberg e outros, e com o encanecer de personagens como Dorival Caymmi, a Bahia vive hoje a perspectiva de contar apenas, para se situar no panteão da cultura brasileira, apenas com Caetano, Gil, João Gilberto e mais um punhado. É pouco. E não representa o que se produz em termos culturais pela Bahia. É uma dependência nefasta e temos de implorar aos céus para que tenham vida longa.

     Pode-se dizer que a Bahia não tem novos elementos que possam representar seu status cultural? Claro que não. Aqui se produz. Temos pessoas elaborando excelentes trabalhos em artes plásticas, literatura, música erudita, música popular, cinema, vídeo e fotografia. Então qual o motivo delas não serem conhecidas, como o foram os grandes criadores surgidos a partir da metade do século passado?

      A questão é que, antes, os midiáticos tinham compromisso com a cultura baiana. Exportávamos não só atores, mas criadores, diretores, pintores, tapeceiros, músicos e escritores. Hoje o que se vê é a absoluta falta de compromisso com a cultura local, com raras exceções. Daí que não se vê nos programas de jornalismo/entretenimento, as exposições de arte, por exemplo. As TVs, veículos de maior penetração, não criam ícones culturais, nem mesmo na Axé. Quando o artista fica famoso, por um motivo ou outro, aí sim, ganha espaço.

   Mesmo as boas iniciativas das empresas que apóiam a cultura, ficam a dever. Não têm cobertura (eu não lembro de nenhum escritor que tenha ganhado um prêmio e sido entrevistado num programa). Por falta de um marketing agressivo entregam o prêmio e tudo acabou por aí. Falta massificar o nome do ganhador e capitalizar com isso. O cara ganha e volta ao ostracismo.

      Com isso não criamos novos nomes. O povo, mesmo a parte culta da população, não conhece quem cria, escreve ou produz. E temos verdadeiros gênios em todas as áreas. A  Bahia é um dos três estados brasileiros onde se produz mais e onde a cultura tem relevância. Mas, não podemos culpar apenas a mídia eletrônica. Se nossos famosos escritores e músicos tivessem a generosidade de Jorge Amado, que usava da fama para ajudar a quem tinha qualidade, com certeza nossos campos seriam mais floridos. Lembrando que cada vez que a mídia deixa de revelar talentos, está perdendo personagens, até mesmo para sua própria degustação.

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sábado, 29 de novembro de 2008


Sábado, 29 de Novembro de 2008  
Dedada no dos outros é refresco

   Não sou eu quem está inventando. Está em todos os meios. O Instituto Nacional do Câncer vem desaconselhando o exame de toque retal, que vem a ser a velha "dedada no fiofó" (lá nele, diga-se de passagem) e também o exame de PSA. Ou seja: o sargento Isidório, acho que ex-deputado estadual, tinha razão quando levou a dedada e chiou parecendo porco quando vai para o abate. Disse em plenário que estava um caco.
   Vocês lembram a dor de cabeça que me deu uma crônica teclada e postada aqui mesmo, neste espaço sobre o tema?
  Foi há 5, 10, 15 anos? Seu Lio, nosso revisor aqui do jornal sabe, pois ele foi o único a me defender dos impropérios do homem, assim que soube do caso lá na Assembléia Legislativa. Lembre que ele denunciou aos seus pares - onde é possível que alguns... deixa para lá -, tinha sido violado, estava envergonhado, traumatizado e principalmente decepcionado, pois o médico nem para dar uma palmadinha nas costas, de consolo, depois de ter cometido o ato (quer dizer, o procedimento). Flor e telefonema no dia seguinte, nem pensar. Médico mais insensível.
   Agora que os pesquisadores deram o aval, todos os frouxos e preconceituosos vão tirar o reto da reta. Com isso vai morrer uma cacetada, pois os pesquisadores informam que 25 por cento dos tumores que afligem o homem têm correlação com a próstata. E que, a cada 24 minutos, no Brasil, um machão morre por causa de câncer na próstata. É pouco ou quer mais?
   Eu não tenho nada disso. Só não vou ao proctologista é todo dia (por causa das más-línguas, hahaha! Pega mal). Os fofoqueiros iriam dizer que estou mesmo é viciado no toque e os mais sacanas irão me acusar de uma ligação perigosa com o médico. Aliás, se vissem o médico que freqüento (freqüento é forma de dizer, pois a palavra freqüentar tem uma conotação de assiduidade e o que quero passar é que vou lá anualmente.... olha... deixa pra lá... explicar é complicado) morriam, aí sim, de medo, O cara tem as mãos do tamanho de uma pata de elefante e se não fosse jeitoso E PROFISSIONAL, viu seu maldoso, estropiaria qualquer filho da mãe.
   Lembro que na primeira vez fui lá, indicado pelo meu cardiologista e pesquisador doutor Juarez Brito (rei de New Orleans), levei um susto e quase me pico. No aperto de mão deu tremedeira e eu disse:
  - Doutor, não vou agüentar!
   Ele me tranqüilizou: "Gueeenta!". E conversa vai, conversa vem o cara mandou brasa. Não fiz uuiii! Aaaiiii! Valei-me Jesus, porque macho que é macho agüenta essas vicissitudes sem chiar. Quem chia é mulherzinha ou fresco.
   Foi, na época, o que faltou ao sargento Isidório, quando o médico enfiou lá no seu isidoro. Não agüentou. E ainda ouviu chiste do médico:
  - Se não agüenta, véio... por que veio?
   O deputado, vocês lembram, disse que tinha ido ao inferno em vida e que seu (lá dele) zé-de-obrá estava ardendo parecendo que tinha comido pimenta malagueta. Agora os cientistas mostram que ele tinha razão. Não era preciso enfiar, digo, atochar o seu (lá dele) toba. Vá ver que o médico era simpatizante do PFL e se vingou invadindo o reduto do petista. Também o PT anda botando no de todo mundo...


  
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. e-mail: jolivaldo.freitas@yahoo.com.br

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Vassoura conceitual

 

Dimitri Ganzelevitch        

 

                                      

É impressionante constatar quanto Lisboa mudou nestes últimos 30 anos. Mais impressionante ainda é não ter perdido sua alma. Permanece igual a ela mesma, com seu charme discretamente provinciano, a harmonia e a diversidade de seus bairros, a excelência de sua gastronomia, especialmente a caseira, a conservação de seus magníficos monumentos em contraponto às ousadias da arquitetura contemporânea. Afinal um dos maiores arquitetos do século não é o português Álvaro Siza?

E, para quem não conhece, recomendo uma visita prolongada ao Centro Cultural de Belém. Alem de magnífico edifício, alia a mais atual arquitetura ao tradicional uso, como suporte, do mármore rosa tratado em bruto, sem polimento. O imponente edifício integra-se perfeitamente ao espaço, cujo ponto principal de atração continua sendo o soberbo Mosteiro dos Jerônimos. A cada viagem, tento visitá-lo e quando tem algum espetáculo, não deixo de assistir, nem que seja pela sóbria beleza do teatro.

 

Numa das minhas primeiras visitas ao CCB, entrei numa grande sala de exposições, situada no subsolo. A mostra era de conceituais franceses. Numa parede, uma série de fotografias da floresta amazônica montadas sobre placas de acrílico iluminadas por transparência. Perto, outra série, uns vinte quadrados vermelhos, todos rigorosamente idênticos. Para ser sincero, me lembro de pouca coisa mais, senão do profundo tédio que emanava do conjunto. Lembrei de outra exposição, desta vez em Barcelona, na Fundação Joan Miró. O cineasta/artista Peter Greenaway, autor de "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante", tinha montado um trabalho conceitual sobre o tema de Ícaro. A exposição, de grandes proporções, era exaustiva festa para os olhos e a mente. Tudo tinha sido explorado. A cera, as plumas, o mar, o sol, a terra, o vento. Os visitantes passeavam encantados, fascinados, entre as montagens recriando as diferentes etapas do mito.

Lembrei também de uma bienal em São Paulo. Entrava-se no corredor obscuro com um espelho colocado debaixo do queixo e, ao chegar num espaço maior, com farta iluminação, panos e véus pendurados e voando pelo teto, perdia-se completamente a noção da limitação da sala, com a poética sensação de andar nas nuvens. 

Neste momento, aqui, estes artistas franceses me pareciam abusar de mesquinha masturbação intelectual, esquecendo que os visitantes também têm direito a usufruir um pouco do fazer-arte, sem se sentir analfabetos primários.

O cúmulo foi ao chegar perto de uns degraus defronte a uma porta hermeticamente fechada. O artista tinha colocado com o máximo cuidado, a igual distância dos degraus e da obra vizinha, um balde com água suja, uma vassoura nova e um pano de chão usado.

Contemplei o conjunto de objetos domésticos sem definir a proposta. Talvez uma postura de contestação, questionamento sobre o sentido da exposição, uma forma voluntariamente corriqueira de recuperar o arrogante espaço...

Estava perplexo, sentindo uma profunda irritação tomar conta de minha garganta, quanto ouvi "O senhor desculpe". Atrás de mim, uma mulher vestida de preto, cabelo cinzento, pedia passagem. Afastei-me. Com absoluta calma, ela pegou a vassoura, o balde, o pano e atravessou a sala para desaparecer na porta de entrada.

Acabava de limpar a sala.

 

 

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